Dólar forte, real fraco? Termos de troca explicam 2026 (guia prático)

Como petróleo, minério e agro moldam os termos de troca do Brasil e influenciam USD/BRL, preço, hedge e funding. Inclui playbook, KPIs e CTAs.

Jan 30, 2026 - 07:21
Jan 31, 2026 - 20:57
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Dólar forte, real fraco? Termos de troca explicam 2026 (guia prático)

Dólar forte, real fraco? O papel dos termos de troca em 2026

 

Resumo executivo

Em 2026, a força do dólar global (DXY) continuará oscilando com a trajetória de juros dos EUA e o apetite a risco. Mas para o real, uma peça-chave passa, muitas vezes, despercebida: os termos de troca (ToT) — a relação entre preços das exportações e das importações do Brasil. Quando o “carrinho das exportações” (minério, agro, celulose) sobe mais do que o “carrinho das importações” (combustíveis, químicos, bens de capital), o ToT melhora e amortece o efeito do dólar forte. Se petróleo, diesel e químicos encarecem mais do que minério e agro, o ToT piora e a pressão sobre o USD/BRL aumenta. Este guia explica, sem economês, como os ToT atuam como “seguro natural” ou “agravante” do câmbio; mostra cenários práticos para 2026; oferece um playbook de 30–90 dias para tesourarias traduzirem ToT em preço, hedge e funding; e lista KPIs, armadilhas e CTAs para simular custos e riscos.

Termos de troca, em português claro

Termos de troca são um índice que compara o preço médio de tudo que o Brasil vende (exporta) com o preço médio do que compra (importa). Se exportamos produtos que subiram e importamos itens que caíram, ficamos com mais poder de compra em moeda forte; se ocorre o inverso, precisamos de mais reais (e dólares) para manter a mesma cesta. É um “câmbio estrutural” que convive com o câmbio de tela: mesmo com DXY forte, ToT favorável pode sustentar o BRL; mesmo com DXY fraco, ToT pior pode impedir apreciação.

Regra prática: para empresas brasileiras, ToT bom = balança ajudando, pressão menor sobre USD/BRL e fretes menos pesados no P&L; ToT ruim = balança perdendo fôlego, custos importados ↑ e points/basis piores em janelas de rolagem.

O que mais pesa no ToT do Brasil hoje

  • Exportações: minério de ferro, soja, milho, carnes, celulose e alguns industriais.
  • Importações: petróleo refinado/diesel/gás/nafta, químicos/petroquímicos, fertilizantes, bens de capital e eletrônicos.

A composição pode mudar ao longo do ano por causa de safras, cronogramas de embarque, manutenção de refinarias, fretes e rotas. A leitura correta do ToT é dinâmica: além do índice agregado, observe os cestos setoriais que conversam com o seu DRE.

Três cenários de 2026 (e traduções para o DRE)

1) ToT favorável com DXY forte moderado

Como seria: minério/agrícolas resilientes e petróleo estável/leve queda; frete marítimo sem choque; demanda asiática “ok”. Dólar global firme, mas sem “aperto” adicional de Treasuries.

Impacto provável: carry do BRL sustentado, balança forte, basis e points relativamente comportados; USD/BRL encontra resistência nas altas. Para setores importadores, custo de reposição melhora na margem. Para exportadores, receita em BRL relativamente estável, com upside controlado.

Táticas: importadores travam NDF no firme (30/60/90) e mantêm teto (calls) barato para cauda; exportadores usam piso (puts) seletivos para proteger margem sem matar o upside.

2) ToT neutro com DXY forte/volátil

Como seria: minério e petróleo caminham juntos; agrícolas oscilam conforme clima/logística; Treasuries nervosos e vol implícita de FX em alta.

Impacto provável: USD/BRL em faixa; empresas sofrem mais com slippage e desvio de base (spot–PTAX) do que com tendência. Frete sob controle, porém livros rasos em janelas pós-feriado.

Táticas: collars (travas) para volumes prováveis; NDF com rolagem D-2 nos firmes; contratos comerciais com gatilhos por faixas de câmbio/Brent/Minério para evitar disputa.

3) ToT desfavorável com DXY muito forte

Como seria: petróleo/diesel/nafta sobem; minério e agro cedem; fretes sobem por “war risk”/rotas; DXY robusto por yields EUA e aversão a risco.

Impacto provável: pressão sobre USD/BRL, points mais caros, basis pior e janela de crédito/mercado mais estreita. Importadores sofrem; exportadores de commodities perdem preço internacional e lutam para repassar.

Táticas: importadores elevam proteção com teto e até teto+call spread para baratear; exportadores reforçam NDF no firme e bandas contratuais para repasse; funding alonga só o essencial e preserva liquidez de contingência.

Do ToT ao câmbio: os canais de transmissão

  1. Fluxo comercial: ToT bom melhora balança e traz dólar vendedor; ToT ruim inverte.
  2. Inflação e juros: ToT ruim encarece combustíveis/químicos e pressiona IPCA, afetando curva e carry do BRL; ToT bom alivia parte do IPCA.
  3. Risco-país e crédito: ToT fraco piora termos de financiamento; spreads de crédito abrem; basis cambial piora nas rolagens.
  4. Expectativas: índices de confiança reagem a choques de ToT; a comunicação de empresas e governo afeta o tamanho do “amortecedor” de risco.

Como medir ToT no seu planejamento (sem precisar ser IBGE)

  • Mini-ToT setorial: crie um índice simples: Preço ponderado das exportações-chave ÷ Preço ponderado das importações-chave do seu negócio. Atualize mensalmente.
  • Mapa de sensibilidade: quantos bps de margem a empresa perde/ganha com +10% em Brent, -10% em minério, +15% em frete? Registre.
  • Base cambial: garanta que sua tabela comercial (spot ou PTAX D-0/D-1/média) seja idêntica à base do hedge. ToT ruim com base desalinhada é “vazamento dobrado”.

Setor a setor: traduções rápidas

Varejo e indústria importadora

ToT ruim + DXY forte = custo de reposição ↑. Estratégia: NDF no firme, teto para provável, bandas de repasse por família de produto, contratos de frete com gatilhos Brent/rota.

Exportadores de commodities

Se minério/celulose/proteínas caem enquanto combustíveis ↑, o ganho de FX pode não compensar o preço internacional. Estratégia: piso (puts) nos prováveis, NDF no firme e calendário de fixação alinhado à base (PTAX/spot).

Transportes e logística

Diesel e bunker ditam o jogo. ToT ruim normalmente “puxa” combustíveis e rotas. Estratégia: repasse por faixa de Brent em contratos, cobertura de FX para importações de peças e mix de prazo de financiamento do fleet.

Armadilhas clássicas (e como desarmar)

  • Confundir câmbio de tela com “câmbio da economia”: o primeiro é imediato; o segundo (ToT) é o pano de fundo. Planeje com ambos.
  • Base mista: pricing por spot e hedge por PTAX (ou vice-versa) sem ajuste. Em ToT ruim, a perda dobra.
  • Over-hedge: travar 100% do provável em NDF e desmontar caro. Use opções/collars para incerteza.
  • Rolagem no último dia: em ToT ruim, basis piora nas viradas; distribua D-3/D-2/D-1.
  • Ignorar frete e seguros: sem cláusulas de war risk/bunker, o contrato vira fonte de litígio.

Playbook de 30–90 dias (da narrativa ao número)

  1. Dia 0–7 — Painel ToT: monte um painel com minério, Brent/diesel, químicos, frete e agrícolas. Defina três faixas (base/alta/baixa) de USD/BRL e ToT para o trimestre.
  2. Dia 7–15 — Política de base e hedge: publique a base oficial (PTAX D-0/D-1/média ou spot por janela), alçadas e mix: NDF para firmes; opções/collars para prováveis. Proíba rolagem no último dia útil.
  3. Dia 15–30 — Contratos e preço: insira gatilhos de repasse (faixas de câmbio/Brent/Minério) nos contratos B2B e um calendário de revisão trimestral de tabela.
  4. Dia 30–60 — Execução disciplinada: feche NDF em tranches (D-3/D-2/D-1), ative ordens limitadas, use 2–3 casas com failover. Registre memória de preço (curvas, points, vol, spread).
  5. Dia 60–90 — Auditoria e funding: rode KPIs (base, slippage, cobertura, prêmio/BRL), compare CET (CDI+ × IPCA+ × prefixado) e avalie alongar apenas se a janela e ToT permitirem.

🌎 Risco Cambial — perda marginal 30/60/90 💠 Aurum — comparar CET (CDI+, IPCA+, prefixado) 🏛️ Linhas BNDES — taxas, prazos e carência 📊 Mercado de Capitais — debêntures/NP/LC

KPIs do comitê (sem cegueira analítica)

  • Mini-ToT setorial (índice próprio: exportações-chave ÷ importações-chave).
  • Desvio de base (spot–PTAX) por janela e contraparte.
  • Slippage (taxa teórica vs. executada) em NDF/rolagens.
  • Cobertura por bucket 30/60/90: firme (NDF) vs. provável (opções/collars).
  • Rácio prêmio/BRL protegido e delta efetivo das opções.
  • Frete como % da receita e lead time médio por rota.
  • CET ponderado do passivo (CDI+/IPCA+/prefixado) vs. orçamento.

FAQ — dúvidas rápidas

ToT bom garante real forte?

Não garante. Ajuda muito via balança e expectativas, mas pode ser neutralizado por DXY muito forte, ruído doméstico ou janelas de crédito fechadas. Por isso, use faixas de câmbio, não um ponto.

Como saber se o meu negócio “depende mais” de minério ou de petróleo?

Monte o mini-ToT: liste 3–5 exportações/receitas e 3–5 importações/custos críticos, atribua pesos (participação no DRE) e acompanhe preços. O índice te dá a direção “estrutural” do seu câmbio.

Devo hedgear petróleo diretamente?

Somente se o consumo for material e previsível. Na maioria dos casos, hedgear a moeda e colocar gatilhos de Brent/frete nos contratos resolve com menos complexidade.

Spot ou PTAX — qual base escolher?

A mesma da sua formação de preço. Misturar bases sem ajuste cria vazamento, especialmente quando o ToT piora.

Quando usar collars em vez de NDF?

Para volumes prováveis ou quando a vol implícita estiver alta e o orçamento de prêmio for limitado. NDF é o “cavalo de batalha” do firme.

Conclusão

Em 2026, “dólar forte” não precisa significar, automaticamente, “real fraco”. O que decide o placar é o pano de fundo dos termos de troca: se vendemos caro e compramos barato, o BRL resiste; se compramos caro e vendemos barato, ele sofre. Para a tesouraria, a resposta é processo, não adivinhação: medir um mini-ToT do seu negócio, padronizar base, combinar NDF e opções por bucket, inserir gatilhos em contratos e acompanhar KPIs mensais. Assim, o efeito de ToT deixa de ser surpresa e vira gestão previsível de preço, caixa e margem.

Conteúdo educativo; exemplos são ilustrativos e não constituem recomendação financeira, jurídica, contábil ou de investimentos.

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Vinicius Teixeira Vinicius Teixeira é especialista com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, atuando com foco em soluções estratégicas para câmbio, crédito estruturado e inteligência financeira para empresas. Ao longo da carreira, ajudou centenas de negócios a tomarem decisões mais inteligentes e rentáveis, sempre com uma abordagem analítica, consultiva e baseada em dados. Fundador da GX Capital, Vinicius combina sua vivência de mercado com o uso de tecnologias avançadas e inteligência artificial para oferecer uma nova geração de serviços financeiros. É também palestrante, tendo participado de eventos e formações voltadas à educação financeira e à transformação digital no setor. No portal da GX Capital, compartilha sua visão sobre o futuro do mercado, tendências econômicas e estratégias práticas para empresas que querem crescer com eficiência e segurança.