NDF, opção ou trava: qual instrumento usar para proteger o Q1

Quando usar NDF, opções e travas (collars) para exposição firme e provável, com base spot x PTAX, buckets 30/60/90, custos, KPIs e playbook de execução.

Jan 21, 2026 - 15:40
Jan 21, 2026 - 08:01
 0  2
NDF, opção ou trava: qual instrumento usar para proteger o Q1

NDF, opção ou trava: qual instrumento usar para proteger o Q1

Resumo executivo

Q1 é um trimestre de reabertura: livros ainda rasos, rolagens acumuladas e agenda de dados cheia. Para quem importa, exporta ou tem despesas/receitas em USD, a pergunta não é “para onde vai o dólar”, e sim “qual instrumento usa em cada tipo de exposição”. Este guia compara NDF (liquidação por diferença em BRL, ideal para fluxos firmes), opções (teto/piso para volumes prováveis e caudas) e travas (collars, que reduzem prêmio vendendo parte do upside). Explicamos quando cada um funciona, como alinhar base (spot x PTAX) e janelas para evitar vazamento de margem, como montar buckets 30/60/90 e medir CET/greeks relevantes. Fechamos com um playbook de 30–90 dias, exemplos setoriais, KPIs do comitê e CTAs para simular risco e custo.

Primeiro, a base: spot x PTAX e as janelas oficiais

Antes de escolher instrumento, defina a base de precificação comercial. Se sua tabela usa spot (janelas Londres/NY/SP) e o hedge é por PTAX (D-0, D-1 ou média), nasce um risco de base que cresce nas viradas e em manhãs com livro raso. Padronize por escrito: “Protegemos por PTAX D-1” ou “executamos spot na janela X”. Publique janelas, alçadas, regras de ordens limitadas e use duas a três casas com failover operacional.

NDF: o cavalo de batalha para o firme

O que é: contrato a termo de câmbio que liquida por diferença em BRL, referenciado à PTAX (ou critério acordado) no vencimento. Não há entrega física de USD. Quando usar: fluxo firme (Invoice/BL assinado, cronograma claro), orçamento fechado e datas conhecidas. Vantagens: simples de executar, previsível, bom para buckets 30/60/90 com rolagem programada. Custo: forward points (paridade de juros), basis (prêmio/desconto entre mercados) e spread da contraparte. Riscos: over-hedge se o volume não ocorrer; slippage ao rolar no último dia útil; desalinhamento de base se a sua tabela for spot.

Opções: seguro para o provável e para as caudas

O que são: direitos de comprar (call) ou vender (put) USD a uma taxa (strike) em data futura (ou janela). Quando usar: exposição provável (quantidade incerta), preservação de upside (exportador) ou limitação de teto (importador) com custo conhecido (prêmio). Vantagens: capam caudas, dão flexibilidade se o volume não se materializar. Custo: prêmio inicial (influenciado por volatilidade implícita, prazo e moneyness). Riscos: pagar prêmio alto em dias de pânico; desalocar caixa; escolher strike que não conversa com o mark-to-budget (MtB).

Trava (collar): reduzir prêmio trocando parte do upside

O que é: combinação de comprar uma opção de proteção (put para exportador; call para importador) e vender a opção oposta para financiar parte do prêmio. Quando usar: quando há orçamento de prêmio limitado e você aceita um corredor de taxa. Vantagens: custo baixo/zero, proteção contra cauda “ruim” e banda de previsibilidade. Riscos: travar oportunidade acima/abaixo do corredor; escolher banda estreita demais; lidar com ajustes se o volume final divergir muito.

Como escolher: matriz firme × provável × sensibilidade

  • Fluxo firme (valor e data certos): priorize NDF nos buckets 30/60/90, com rolagem D-2/D-1 e ordens limitadas. Use opções apenas para cobrir cauda extraordinária (ex.: put “desastre” para exportador ou call “teto” barato para importador).
  • Fluxo provável (incerto em volume): priorize opções (teto/piso) para preservar flexibilidade. Se o orçamento de prêmio for curto, use travas com banda alinhada ao MtB.
  • Exposição híbrida (indexador do passivo em USD + preço em BRL): combine swap de indexador (USD→CDI/IPCA) para o entre datas com NDF/opções para a taxa “ponto”.

Custos, “gregos” e métricas que importam

  • Forward points (NDF): refletem diferencial de juros; variam com prazo e liquidez. Compare points e spread entre casas e registre memória de preço.
  • Volatilidade implícita (opções): principal driver do prêmio. Em dias de choque, a vol sobe; se puder, fatie a execução e considere travas para reduzir custo.
  • Delta e moneyness: opções mais “na moeda” protegem mais (delta alto), mas custam caro; “fora da moeda” custam menos e funcionam como parachoque. Ajuste o delta ao poder de repasse.
  • Rácio prêmio/BRL protegido: indicador de eficiência para o comitê: quanto de prêmio pago por 1 BRL de exposição realmente protegido.
  • Base spot–PTAX e slippage: meça o desvio entre taxa teórica e executada por janela/contraparte; é onde a margem costuma vazar.

Exemplos práticos (ilustrativos)

Importador de eletrônicos (Q1 de reposição)

Contexto: preço comercial por spot, pedidos firmes de fevereiro/março, lote extra incerto. Estratégia: NDF para 70% do firme (30/60); call (teto) para 30% provável, com collar quando a vol subir. Resultado: orçamento respeitado, flexibilidade no lote incerto.

Exportador de proteínas (embarques mensais)

Contexto: tabela por PTAX média, volumes variáveis por janela logística. Estratégia: NDF 60% firme + put (piso) 40% provável; rolagem D-2 e post-mortem mensal. Resultado: DSCR estável e upside parcial preservado.

Empresa de software/Cloud (OPEX em USD)

Contexto: consumo em USD flutuante e recorrente. Estratégia: NDF 50–60% do run-rate e collar para excedentes; revisão trimestral do delta de proteção. Resultado: previsibilidade do OPEX e custo de prêmio sob controle.

Política e governança: sem isso, a técnica não se sustenta

  • Documento de política: base (spot/PTAX; D-0/D-1/média), janelas, alçadas, mix-alvo (ex.: 65% NDF firmes / 35% opções prováveis), critérios de delta e buckets.
  • Concorrência e memória: cotações em 2–3 casas com memória de preço (curvas, points, vol, spread). Sem memória, não há benchmark de execução.
  • Execução em tranches: evitar último dia útil; usar ordens limitadas e failover automático.
  • Hedge accounting: quando aplicável, reduz volatilidade no resultado — mas exige documentação e testes de eficácia.

Armadilhas típicas (e como evitar)

  • Over-hedge: travar 100% do provável em NDF e desmontar caro depois. Antídoto: provável em opções/travas.
  • Base desalinhada: precificar por spot e proteger por PTAX sem ajuste — vazamento garantido nas viradas. Antídoto: padronização e KPIs de base.
  • Rolagem de última hora: spread alto e slippage. Antídoto: rolar D-2/D-1 com janelas e ordens limitadas.
  • Pagar prêmio no pico de vol: comprar proteção “no pânico”. Antídoto: tranches e collars financiados.
  • Esquecer logística/contratos: proteção financeira sem gatilhos de repasse em contrato vira briga de margem.

KPIs do comitê (sem cegueira analítica)

  • Cobertura por bucket 30/60/90: firme (NDF) vs. provável (opções/travas).
  • Desvio de base (spot–PTAX) por janela e contraparte.
  • Slippage (taxa teórica vs. executada) em NDF e rolagens.
  • Rácio prêmio/BRL protegido e delta efetivo por BU.
  • CET implícito dos NDFs (points + spread) vs. orçamento (MtB).

Playbook de 30–90 dias (do diagnóstico à execução)

  1. Dia 0–7 — Mapa de exposição: por linha de negócio, separe firme (contratos/Invoice) e provável (pipeline); defina taxa-orçamento (MtB) e publique a base oficial (PTAX/spot) e as janelas.
  2. Dia 7–15 — Mix-alvo e RFP: firme em NDF; provável em opções (teto/piso) ou travas. Cote 2–3 casas e registre memória de preço (curvas, points, vol, spread).
  3. Dia 15–30 — Execução fase 1: fechar NDFs dos firmes em tranches D-3/D-2/D-1; montar collars com strikes alinhados ao MtB, evitando pagar prêmio no pico de vol.
  4. Dia 30–60 — Roll & ajustes: rolar antes do último dia útil; recalibrar strikes e deltas conforme vendas/embarques; reforçar cobertura se o cenário migrar para a cauda “ruim”.
  5. Dia 60–90 — Post-mortem: consolidar KPIs (base, slippage, rácio prêmio/BRL, cobertura), documentar aprendizados e atualizar a política para Q2.

🌎 Risco Cambial — perda marginal por buckets 💵 FX Loan — viabilidade USD vs. BRL 💠 Aurum — comparar CET por indexador 📊 Mercado de Capitais — debêntures/NP/LC

FAQ — dúvidas rápidas

NDF sempre é mais barato que opção?

Para fluxo firme, o NDF tende a ser mais eficiente porque não requer prêmio à vista. Para incerteza de volume, a opção evita over-hedge e pode ser mais barata no resultado final.

Quando usar collar em vez de comprar opção “pura”?

Quando o orçamento de prêmio é limitado e você aceita um corredor de taxa. É típico para importadores com teto de custo ou exportadores que não querem perder totalmente o upside.

Protejo por spot ou PTAX?

Pela mesma base do seu pricing comercial. Se a sua tabela é PTAX (D-0/D-1/média), proteja por PTAX. Se é spot, documente as janelas e execute nelas.

Como evitar pagar prêmio caro?

Execute em tranches, prefira janelas com vol mais baixa e utilize travas para financiar parte do prêmio. Ordens limitadas ajudam a não “pagar a tela”.

Hedge accounting é obrigatório?

Não; é uma escolha de governança que pode reduzir volatilidade contábil. Exige documentação, testes de eficácia e disciplina de mensuração.

Conclusão

Proteger o Q1 é menos sobre “acertar o dólar” e mais sobre processo. Com base alinhada, mix certo — NDF para o firme, opções para o provável e travas quando o orçamento de prêmio é curto —, janelas e KPIs, a tesouraria transforma volatilidade em previsibilidade operacional. Use os simuladores para colocar números em cada decisão e tornar o playbook repetível ao longo do ano.

Conteúdo educativo; exemplos são ilustrativos e não constituem recomendação financeira, jurídica, contábil ou de investimentos.

Qual é a Sua Reação?

Like Like 0
Não Curtir Não Curtir 0
Love Love 0
Engraçado Engraçado 0
Irritado Irritado 0
Triste Triste 0
Uau Uau 0
Vinicius Teixeira Vinicius Teixeira é especialista com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, atuando com foco em soluções estratégicas para câmbio, crédito estruturado e inteligência financeira para empresas. Ao longo da carreira, ajudou centenas de negócios a tomarem decisões mais inteligentes e rentáveis, sempre com uma abordagem analítica, consultiva e baseada em dados. Fundador da GX Capital, Vinicius combina sua vivência de mercado com o uso de tecnologias avançadas e inteligência artificial para oferecer uma nova geração de serviços financeiros. É também palestrante, tendo participado de eventos e formações voltadas à educação financeira e à transformação digital no setor. No portal da GX Capital, compartilha sua visão sobre o futuro do mercado, tendências econômicas e estratégias práticas para empresas que querem crescer com eficiência e segurança.