CDI, IPCA, IGP-M: por que indexadores sobem/caem em momentos diferentes
Drivers, lags e sazonalidades de CDI, IPCA e IGP-M; como escolher indexador em contratos, reprecificar dívidas e proteger margem com hedge e cláusulas.
No Brasil, CDI, IPCA e IGP-M são três bússolas diferentes: o CDI reflete política monetária e condições de liquidez de curtíssimo prazo; o IPCA mede a inflação ao consumidor com foco em bens e serviços urbanos; e o IGP-M agrega três índices (IPA, IPC e INCC), amplificando movimentos de commodities, câmbio e construção. Por terem origens e cestas distintas, é normal que subam ou caiam em momentos diferentes. Este guia explica os drivers de cada indexador (juros, câmbio, safras, bandeiras tarifárias, salários, aluguel, frete e commodities), mapeia desefasagens e sazonalidades, e mostra como transformar a teoria em prática: cláusulas contratuais, escolha de indexador por tipo de fluxo, hedge e playbook de 30–90 dias para reprecificar dívidas, receitas e CAPEX sem vazar margem.
O CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é a taxa média dos empréstimos de um dia entre bancos. Na prática, caminha junto da Selic meta e do juro efetivo do sistema, com pequenas variações por liquidez. Quando o Banco Central sobe a Selic para conter inflação, o CDI sobe quase instantaneamente; quando corta, o CDI cede. Além do nível, importam as expectativas futuras (curva DI): o mercado antecipa movimentos, e os ativos prefixados reprecificam antes do “diário”.
O IPCA é o índice de inflação oficial ao consumidor. A cesta tem alimentos, bens industriais, serviços e preços administrados (energia, combustíveis, transporte público). Três forças explicam suas oscilações: câmbio (pass-through para bens tradables), inércia salarial (serviços) e tarifas/bandeiras (energia/combustíveis). Há sazonalidade: alimentos in natura no 1º semestre, educação em janeiro/fevereiro, vestuário e passagens em meses específicos.
O IGP-M é uma combinação de três índices: IPA-M (preços no atacado), IPC-M (consumidor) e INCC-M (construção). O IPA, com peso maior, reage rápido a commodities (minério, petróleo, grãos), câmbio e fretes; o INCC captura custos de materiais e mão de obra da construção (com picos em datas-base de convenções coletivas); e o IPC aproxima o IGP de uma cesta de consumo. Como resultado, o IGP-M costuma antecipar movimentos que só aparecem no IPCA meses depois — e também exagera ciclos quando commodities/câmbio disparam ou desabam.
Situação típica: o BC manteve juros altos para consolidar desinflação; a inflação corrente cede, mas a política monetária só relaxa depois. Na prática: pós-choque de commodities, IPCA/IGP-M desaceleram; CDI segue “apertado”. Impacto: bom para prefixados (se a queda for crível), neutro/negativo para CDI+ no curto prazo.
Situação típica: serviços aquecidos e salários pressionando o núcleo do IPCA, enquanto commodities estão estáveis. O IGP-M sente menos (sem choque de IPA) e o CDI espera evidências persistentes antes de mexer. Impacto: contratos atrelados ao IPCA “correm” mais do que IGP-M; shopping/energia (com IGP-M) ficam relativamente aliviados.
Situação típica: câmbio e commodities sobem rápido; o IPA reage e o IGP-M sobe na frente. O IPCA sente depois; o CDI só muda com sinal de contaminação para expectativas. Impacto: contratos de aluguel IGP-M ajustam forte; fornecedores com preços indexados ao IPA pressionam margens antes do varejo conseguir repassar.
Situação típica: desinflação global e local, commodities “de lado” com picos pontuais; BC corta juros gradualmente; IGP-M oscila ao sabor do IPA. Impacto: abre janela para alongar passivos, revisar cláusulas de reajuste e migrar contratos de IGP-M para IPCA ou bandas híbridas.
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Com câmbio estável e commodities recuando, o IGP-M cai, mas o CDI ainda está alto. Ação: renegociar aluguel para IPCA c/ banda; alongar parte da dívida em IPCA+; travar importações firmes via NDF e cobrir prováveis com teto. Resultado: menor volatilidade de reajustes e melhor ALM.
Receita indexada ao IPCA, CAPEX com INCC e dívida mista. Ação: priorizar dívida IPCA+ para casar com receita; cláusulas de repasse de INCC no EPC; collars para importados. Resultado: volatilidade menor do DSCR e previsibilidade de caixa.
Ação: contratos B2B com gatilhos por faixas de Brent/FX; NDF no firme; opções para prováveis; dívida com mix CDI+/prefixado para atravessar ciclos. Resultado: margem menos sensível a choques curtos.
Porque o BC olha tendência e expectativas, não só o ponto do mês. Se a alta do IPCA parece temporária, o Copom pode manter a trajetória do juro — e o CDI segue o curso.
Depende do apetite à volatilidade. Em ciclos de commodities/câmbio, o IGP-M pode exagerar para cima/baixo. Muitos contratos migram para IPCA ou para bandas híbridas (IPCA com teto/chão).
Idealmente, IPCA+ para casar bases (ALM). CDI+ serve para capital de giro tático; prefixado para travar se a curva embicar para baixo e houver folga de caixa.
Negociar cláusulas de reposição mínima (ou bandas) para evitar deflação operacional que destrua a manutenção de ativos, sempre com memória de cálculo.
Documente gatilhos objetivos por faixas de câmbio/commodity e calendário de revisão. Transparência + bandas reduzem disputa.
CDI, IPCA, IGP-M: por que indexadores sobem/caem em momentos diferentes
Resumo executivo
O que é cada indexador (sem economês)
CDI — o “termômetro” da Selic
IPCA — o custo de vida na veia
IGP-M — o índice “sintético” mais volátil
Por que andam “fora de sincronia”
Quando cada um sobe (ou cai) mais
1) CDI em alta, IPCA/IGP-M em queda
2) IPCA em alta, IGP-M moderado, CDI parado
3) IGP-M disparando, IPCA lento, CDI estável
4) CDI e IPCA caindo, IGP-M volátil
Como isso bate no seu DRE
Escolha do indexador: mapa rápido por tipo de contrato
Playbook 30–90 dias: reprecificando sem perder margem
Casos práticos (ilustrativos)
Varejo importador com aluguel IGP-M e dívida CDI+
Concessionária de infraestrutura (receita IPCA)
Indústria química (matéria-prima ligada a Brent e câmbio)
KPIs do comitê (sem cegueira analítica)
FAQ — dúvidas rápidas
Por que o CDI às vezes “ignora” uma surpresa no IPCA?
IGP-M ainda faz sentido para aluguel?
Qual indexador usar na dívida se minha receita é IPCA?
O que fazer com contratos atrelados ao IGP-M em períodos de queda forte?
Como evitar “briga” de repasse com clientes?
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