CDI, IPCA, IGP-M: por que indexadores sobem/caem em momentos diferentes

Drivers, lags e sazonalidades de CDI, IPCA e IGP-M; como escolher indexador em contratos, reprecificar dívidas e proteger margem com hedge e cláusulas.

Jan 26, 2026 - 13:27
Jan 26, 2026 - 07:29
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CDI, IPCA, IGP-M: por que indexadores sobem/caem em momentos diferentes

CDI, IPCA, IGP-M: por que indexadores sobem/caem em momentos diferentes

Resumo executivo

No Brasil, CDI, IPCA e IGP-M são três bússolas diferentes: o CDI reflete política monetária e condições de liquidez de curtíssimo prazo; o IPCA mede a inflação ao consumidor com foco em bens e serviços urbanos; e o IGP-M agrega três índices (IPA, IPC e INCC), amplificando movimentos de commodities, câmbio e construção. Por terem origens e cestas distintas, é normal que subam ou caiam em momentos diferentes. Este guia explica os drivers de cada indexador (juros, câmbio, safras, bandeiras tarifárias, salários, aluguel, frete e commodities), mapeia desefasagens e sazonalidades, e mostra como transformar a teoria em prática: cláusulas contratuais, escolha de indexador por tipo de fluxo, hedge e playbook de 30–90 dias para reprecificar dívidas, receitas e CAPEX sem vazar margem.

O que é cada indexador (sem economês)

CDI — o “termômetro” da Selic

O CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é a taxa média dos empréstimos de um dia entre bancos. Na prática, caminha junto da Selic meta e do juro efetivo do sistema, com pequenas variações por liquidez. Quando o Banco Central sobe a Selic para conter inflação, o CDI sobe quase instantaneamente; quando corta, o CDI cede. Além do nível, importam as expectativas futuras (curva DI): o mercado antecipa movimentos, e os ativos prefixados reprecificam antes do “diário”.

IPCA — o custo de vida na veia

O IPCA é o índice de inflação oficial ao consumidor. A cesta tem alimentos, bens industriais, serviços e preços administrados (energia, combustíveis, transporte público). Três forças explicam suas oscilações: câmbio (pass-through para bens tradables), inércia salarial (serviços) e tarifas/bandeiras (energia/combustíveis). Há sazonalidade: alimentos in natura no 1º semestre, educação em janeiro/fevereiro, vestuário e passagens em meses específicos.

IGP-M — o índice “sintético” mais volátil

O IGP-M é uma combinação de três índices: IPA-M (preços no atacado), IPC-M (consumidor) e INCC-M (construção). O IPA, com peso maior, reage rápido a commodities (minério, petróleo, grãos), câmbio e fretes; o INCC captura custos de materiais e mão de obra da construção (com picos em datas-base de convenções coletivas); e o IPC aproxima o IGP de uma cesta de consumo. Como resultado, o IGP-M costuma antecipar movimentos que só aparecem no IPCA meses depois — e também exagera ciclos quando commodities/câmbio disparam ou desabam.

Por que andam “fora de sincronia”

  • Origens diferentes: o CDI obedece ao Copom; IPCA e IGP-M são medidas de preços. Se a inflação cai hoje, o CDI pode permanecer alto até que o Copom confirme cortes; e se a inflação dispara por um choque temporário, o CDI não reage imediatamente se o BC entender que é transitório.
  • Cestas diferentes: IPCA (consumo urbano) e IGP-M (forte em atacado/commodities). Um choque de minério ou dólar bate forte no IGP via IPA; no IPCA, o efeito vem depois e diluído.
  • Defasagens (lags): câmbio → atacado (IPA) → varejo (IPC/IPCA) → serviços. O repasse leva semanas a meses, dependendo de estoques, contratos e poder de repasse.
  • Sazonalidade: in natura e educação “puxam” IPCA no início do ano; acordos salariais elevam INCC em janelas específicas; choques de safra e clima mexem no IPA.
  • Choques administrados: combustíveis e energia podem descolar IPCA e IGP-M por decisões regulatórias, impostos e bandeiras tarifárias.

Quando cada um sobe (ou cai) mais

1) CDI em alta, IPCA/IGP-M em queda

Situação típica: o BC manteve juros altos para consolidar desinflação; a inflação corrente cede, mas a política monetária só relaxa depois. Na prática: pós-choque de commodities, IPCA/IGP-M desaceleram; CDI segue “apertado”. Impacto: bom para prefixados (se a queda for crível), neutro/negativo para CDI+ no curto prazo.

2) IPCA em alta, IGP-M moderado, CDI parado

Situação típica: serviços aquecidos e salários pressionando o núcleo do IPCA, enquanto commodities estão estáveis. O IGP-M sente menos (sem choque de IPA) e o CDI espera evidências persistentes antes de mexer. Impacto: contratos atrelados ao IPCA “correm” mais do que IGP-M; shopping/energia (com IGP-M) ficam relativamente aliviados.

3) IGP-M disparando, IPCA lento, CDI estável

Situação típica: câmbio e commodities sobem rápido; o IPA reage e o IGP-M sobe na frente. O IPCA sente depois; o CDI só muda com sinal de contaminação para expectativas. Impacto: contratos de aluguel IGP-M ajustam forte; fornecedores com preços indexados ao IPA pressionam margens antes do varejo conseguir repassar.

4) CDI e IPCA caindo, IGP-M volátil

Situação típica: desinflação global e local, commodities “de lado” com picos pontuais; BC corta juros gradualmente; IGP-M oscila ao sabor do IPA. Impacto: abre janela para alongar passivos, revisar cláusulas de reajuste e migrar contratos de IGP-M para IPCA ou bandas híbridas.

Como isso bate no seu DRE

  • Receita: reajustes por IPCA preservam poder de compra do consumidor; por IGP-M, preservam cadeias expostas a atacado/commodities; por CDI, só fazem sentido em contratos financeiros.
  • Custos: insumos importados “conversam” com IPA/câmbio; serviços e folha conversam com IPCA; obras e CAPEX com INCC.
  • Despesas financeiras: dívidas em CDI+ sofrem quando o BC aperta; em IPCA+ sofrem se a inflação acelera; prefixado dói se o mercado reprecifica para cima.

Escolha do indexador: mapa rápido por tipo de contrato

  • Aluguel comercial: migrar de IGP-M puro para IPCA ou cesta (IPCA com banda) reduz volatilidade extrema; cláusula de revisão extraordinária quando o acumulado superar uma faixa.
  • Fornecimento B2B: usar gatilhos por faixas de câmbio, Brent, minério e frete, mais um indexador “de base” (IPCA/IGP-M), diminui litígio.
  • Financiamento/estruturação: para giro com horizonte curto, CDI+; para projetos com receita IPCA, dívida IPCA+ faz “match” (ALM). Prefira prefixado quando há convicção de queda de juros (e cushion de caixa).

Playbook 30–90 dias: reprecificando sem perder margem

  1. Dia 0–7 — Raio-X de indexadores: inventarie contratos por CDI/IPCA/IGP-M/INCC/prefixado; identifique mismatch (receita IPCA vs. dívida CDI, por exemplo).
  2. Dia 7–15 — Política de reajuste: estabeleça indexador-padrão por tipo de contrato e bandas de exceção (ex.: IGP-M só com teto/colchão). Publique diretrizes de revisão extraordinária.
  3. Dia 15–30 — Mix de dívida: compare CET de CDI+ vs. IPCA+ vs. prefixado; simule sensibilidade (±200 bps em CDI; ±150 bps em IPCA) e defina alvo de duration.
  4. Dia 30–60 — Cláusulas e hedge: insira gatilhos por faixas de câmbio/commodity; firme em NDF (buckets 30/60/90); provável com opções/collars. Migre contratos IGP-M extremos para IPCA com bandas.
  5. Dia 60–90 — KPIs e auditoria: meça slippage (teórico vs. executado), desvio de base (spot–PTAX), headroom de covenants e impacto de reajustes na margem.

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Casos práticos (ilustrativos)

Varejo importador com aluguel IGP-M e dívida CDI+

Com câmbio estável e commodities recuando, o IGP-M cai, mas o CDI ainda está alto. Ação: renegociar aluguel para IPCA c/ banda; alongar parte da dívida em IPCA+; travar importações firmes via NDF e cobrir prováveis com teto. Resultado: menor volatilidade de reajustes e melhor ALM.

Concessionária de infraestrutura (receita IPCA)

Receita indexada ao IPCA, CAPEX com INCC e dívida mista. Ação: priorizar dívida IPCA+ para casar com receita; cláusulas de repasse de INCC no EPC; collars para importados. Resultado: volatilidade menor do DSCR e previsibilidade de caixa.

Indústria química (matéria-prima ligada a Brent e câmbio)

Ação: contratos B2B com gatilhos por faixas de Brent/FX; NDF no firme; opções para prováveis; dívida com mix CDI+/prefixado para atravessar ciclos. Resultado: margem menos sensível a choques curtos.

KPIs do comitê (sem cegueira analítica)

  • Mix de indexadores (receita e dívida) e duration por bucket 30/60/90/360.
  • CET ponderado (CDI+/IPCA+/prefixado) vs. orçamento e vs. janela.
  • Slippage em execuções de hedge e desvio de base (spot–PTAX).
  • Repasse realizado vs. inflação acumulada (IPCA/IGP-M) por linha de negócio.
  • Headroom de covenants sob choques (+200 bps CDI, +150 bps IPCA, +10% FX).

FAQ — dúvidas rápidas

Por que o CDI às vezes “ignora” uma surpresa no IPCA?

Porque o BC olha tendência e expectativas, não só o ponto do mês. Se a alta do IPCA parece temporária, o Copom pode manter a trajetória do juro — e o CDI segue o curso.

IGP-M ainda faz sentido para aluguel?

Depende do apetite à volatilidade. Em ciclos de commodities/câmbio, o IGP-M pode exagerar para cima/baixo. Muitos contratos migram para IPCA ou para bandas híbridas (IPCA com teto/chão).

Qual indexador usar na dívida se minha receita é IPCA?

Idealmente, IPCA+ para casar bases (ALM). CDI+ serve para capital de giro tático; prefixado para travar se a curva embicar para baixo e houver folga de caixa.

O que fazer com contratos atrelados ao IGP-M em períodos de queda forte?

Negociar cláusulas de reposição mínima (ou bandas) para evitar deflação operacional que destrua a manutenção de ativos, sempre com memória de cálculo.

Como evitar “briga” de repasse com clientes?

Documente gatilhos objetivos por faixas de câmbio/commodity e calendário de revisão. Transparência + bandas reduzem disputa.

Conclusão

CDI, IPCA e IGP-M contam histórias diferentes do mesmo país. Entender de onde eles vêm, como se desalinharem no tempo e como amarrá-los ao seu DRE é o que separa “remar contra a maré” de gestão ativa de risco. Com política de indexadores, cláusulas inteligentes, ALM coerente e disciplina de execução (hedge e janelas), você transforma ciclos de preço e juros em previsibilidade de margem.

Conteúdo educativo; exemplos são ilustrativos e não constituem recomendação financeira, jurídica, contábil ou de investimentos.

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Vinicius Teixeira Vinicius Teixeira é especialista com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, atuando com foco em soluções estratégicas para câmbio, crédito estruturado e inteligência financeira para empresas. Ao longo da carreira, ajudou centenas de negócios a tomarem decisões mais inteligentes e rentáveis, sempre com uma abordagem analítica, consultiva e baseada em dados. Fundador da GX Capital, Vinicius combina sua vivência de mercado com o uso de tecnologias avançadas e inteligência artificial para oferecer uma nova geração de serviços financeiros. É também palestrante, tendo participado de eventos e formações voltadas à educação financeira e à transformação digital no setor. No portal da GX Capital, compartilha sua visão sobre o futuro do mercado, tendências econômicas e estratégias práticas para empresas que querem crescer com eficiência e segurança.