Selic em 15%: o que muda (de verdade) para preço, hedge e funding após a primeira reunião de 2026

Copom mantém a Selic em 15% a.a. Entenda impactos em CDI, IPCA, curva, câmbio e crédito; veja playbook de 30–90 dias, KPIs e CTAs para simular custos.

Jan 28, 2026 - 21:46
Jan 28, 2026 - 21:48
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Selic em 15%: o que muda (de verdade) para preço, hedge e funding após a primeira reunião de 2026

Selic em 15%: o que muda (de verdade) para preço, hedge e funding após a primeira reunião de 2026

Resumo executivo

O Copom manteve a Selic em 15% ao ano na primeira reunião de 2026. Para tesourarias, a pergunta prática não é “quando corta?”, mas o que fazer agora com dívida, preço e hedge. Em níveis altos, o juro encarece capital de giro, deixa prefixados sensíveis a qualquer surpresa inflacionária e pressiona o CET das captações corporativas. Ao mesmo tempo, a manutenção dá previsibilidade tática: dá para travar buckets de NDF/roll de câmbio, renegociar cláusulas de reajuste e comparar, com números, CDI+ × IPCA+ × prefixado. Este guia traduz o comunicado em ações: impactos para CDI/curva/IPCA/FX, cenários e gatilhos, um playbook de 30–90 dias, KPIs de comitê, armadilhas operacionais e CTAs para simular risco e custo.

Por que a manutenção da Selic importa para o DRE (sem economês)

  • Juro carregado = CDI alto: o custo do dinheiro no overnight segue pressionando linhas de giro e instrumentos atrelados a CDI+ (capital de giro bancário, FIDC com benchmark CDI, debêntures flutuantes).
  • Curva de juros “viva”: mesmo com Selic parada, a curva futura pode fechar/abrir conforme inflação, atividade e risco. Prefixados ganham se a curva fechar; perdem se reabrir.
  • Inflação (IPCA): juros altos ajudam a consolidar desinflação, mas choques de combustíveis/commodities e serviços podem atrasar cortes.
  • Câmbio (USD/BRL): carry elevado atrai fluxo tático, mas DXY, China e termos de troca podem contrabalançar. Em livros rasos de janeiro, o slippage aumenta.
  • Crédito corporativo: spreads podem estabilizar, mas o CET ainda dói. Emissor com governança e garantias abre janela primeiro.

Tradução prática: CDI, IPCA, curva, câmbio e crédito

CDI

Com Selic estável, o CDI continua alto. Use isso a favor na remuneração do caixa operacional (sweep D+0, contas por finalidade) e dimensione custo de estocagem (estoque caro consome resultado quando o custo de capital é 15%).

IPCA

A ancoragem de expectativas ajuda, mas serviços e itens sensíveis a salários demoram a ceder. Ajuste políticas de repasse com bandas por família de produto e datas fixas de revisão, evitando reajustes ad hoc que irritam o comercial.

Curva de juros

Prefixados são os “velocistas”: performam bem se a curva fechar (queda esperada à frente). IPCA+ protege o poder de compra do fluxo. Em incerteza, uma carteira mista reduz arrependimento de direção.

Câmbio

Carry elevado ajuda BRL, mas movimentos externos dominam janelas (Payroll/CPI, China, petróleo). Em janeiro, execute por tranches D-3/D-2/D-1 e com ordens limitadas para reduzir slippage.

Crédito

Com Selic alta, spreads tendem a estabilizar acima da média histórica. Emisiones reabrem seletivamente; FIDC e NP competem com debêntures. Mantenha memória de preço (curvas, basis, spread) para defender taxa no comitê.

Cenários & gatilhos: três caminhos e o que fazer em cada um

1) Selic estável por mais tempo (padrão de base)

Gatilhos: inflação núcleo de serviços lenta, atividade resiliente, ruído externo. Ação: priorize CDI+ no giro para flexibilidade, avalie prefixado curto em janelas de fechamento, mantenha hedge por NDF no firme e opções/collars no provável.

2) Sinal de corte gradual (queda segura)

Gatilhos: núcleos benignos, atividade moderando, DXY estável. Ação: alongue passivo com IPCA+ e parte em prefixado, trave insumos com teto (calls baratas) e diminua o uso de travas quando a vol implícita recuar.

3) Alta de risco (abertura de curva)

Gatilhos: surpresa inflacionária, choque de commodities, estresse externo. Ação: reduza beta de prefixados, migre caixa tático para CDI, reforce collars no provável e proteja bases contratuais (frete, Brent) com gatilhos objetivos.

Setor a setor: efeitos táticos

  • Varejo e e-commerce: custo de capital alto exige giro de estoque e mix com margem. Descontos por PIX devem refletir CET de meios de pagamento, não “achismo”.
  • Indústria importadora: proteja firme via NDF (30/60/90) e o provável com teto/collar. Ajuste a política de spot vs. PTAX para evitar vazamento de base.
  • Exportadores: piso (puts) para receitas prováveis e calendário de fixação alinhado ao MtB (taxa-orçamento). Atenção a frete e bunker em contratos.
  • Infra/energia: receita IPCA favorece dívida IPCA+. CAPEX deve contemplar INCC e escadas de desembolso em ambiente de juro alto.
  • Serviços: repasse com bandas e cláusulas de revisão reduz fricção com clientes e preserva margem.

Armadilhas comuns (e como desarmar)

  • Base mista: precificar por spot e proteger por PTAX (ou vice-versa) sem ajuste. Padronize a base e meça o desvio de base no comitê.
  • Over-hedge: travar 100% do provável em NDF e desmontar caro. Use opções/collars para incerteza.
  • Rolagem no último dia útil: em livros rasos, slippage explode. Distribua D-3/D-2/D-1.
  • Prefixar tudo “no topo”: sem folga de caixa, qualquer surpresa de curva vira dor. Misture CDI+, IPCA+ e prefixado com metas por bucket.
  • Contratos sem gatilhos: sem cláusulas objetivas (câmbio, Brent, frete), o repasse vira disputa comercial.

Playbook de 30–90 dias (da ata ao DRE)

  1. Dia 0–7 — Política interna: publique a base oficial (PTAX D-0/D-1/média ou spot por janela), as alçadas e o mix-alvo de instrumentos (NDF no firme; opções/collars no provável).
  2. Dia 7–15 — Mapa de dívida: consolide posições em CDI+/IPCA+/prefixado, calcule CET e defina duration-alvo. Prepare RFP para 2–3 casas.
  3. Dia 15–30 — Execução: feche NDFs em tranches, evite último dia útil, registre memória de preço (curvas, points, vol, spread). Negocie gatilhos nos contratos B2B.
  4. Dia 30–60 — Funding e mercado: avalie alongar quando a janela abrir (debêntures/NP/LC ou BNDES). Compare CDI+ × IPCA+ × prefixado no Aurum.
  5. Dia 60–90 — Auditoria e KPIs: rode slippage, desvio de base, cobertura por bucket, rácio prêmio/BRL e headroom de covenants; ajuste bandas e strikes.

💠 Aurum — comparar CET (CDI+, IPCA+, prefixado) 📊 Mercado de Capitais — debêntures/NP/LC 🏛️ Linhas BNDES — taxas, prazos e carência 🌎 Risco Cambial — perda marginal 30/60/90

KPIs do comitê (sem cegueira analítica)

  • CET ponderado do passivo (CDI+/IPCA+/prefixado) vs. orçamento e vs. janela.
  • Desvio de base (spot–PTAX) por janela e contraparte.
  • Slippage (taxa teórica vs. executada) em NDF/rolagens.
  • Cobertura por bucket 30/60/90: firme (NDF) vs. provável (opções/collars).
  • Rácio prêmio/BRL protegido e delta efetivo das opções.
  • Headroom de covenants (DSCR, alavancagem) a choques (+200 bps CDI, +150 bps IPCA, +10% FX).

FAQ — dúvidas rápidas

Selic parada significa prefixado “seguro”?

Não. Prefixado depende da curva futura, que pode abrir/fechar com dados e riscos. Use em porções e com folga de caixa.

Se a inflação cair, o CDI cai junto?

Eventualmente, mas não automaticamente. O BC olha tendência e expectativas. A queda do CDI vem com sinal crível e comunicado do Copom.

Protejo por spot ou PTAX?

Pela mesma base do seu pricing comercial. Misturar bases sem ajuste é a principal fonte de vazamento de margem em janelas voláteis.

Quando usar collar em vez de NDF?

Quando o volume é provável (incerto) e o prêmio de opção estiver alto. NDF é para firme com data/valor definidos.

Vale alongar dívida agora?

Se a janela de mercado for benigna e o CET consolidado cair vs. alternativas. Caso contrário, preserve liquidez e alongue seletivamente.

Conclusão

Com Selic em 15% a.a., a palavra é disciplina: base alinhada (spot × PTAX), execução por janelas com concorrência real, mix de dívida balanceado (CDI+/IPCA+/prefixado) e contratos com gatilhos objetivos. Em vez de “adivinhar o corte”, use simuladores para colocar números nos trade-offs de preço, hedge e funding — e transforme um juro alto em processo previsível, não em surpresa no resultado.

Conteúdo educativo; exemplos são ilustrativos e não constituem recomendação financeira, jurídica, contábil ou de investimentos.

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Vinicius Teixeira Vinicius Teixeira é especialista com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, atuando com foco em soluções estratégicas para câmbio, crédito estruturado e inteligência financeira para empresas. Ao longo da carreira, ajudou centenas de negócios a tomarem decisões mais inteligentes e rentáveis, sempre com uma abordagem analítica, consultiva e baseada em dados. Fundador da GX Capital, Vinicius combina sua vivência de mercado com o uso de tecnologias avançadas e inteligência artificial para oferecer uma nova geração de serviços financeiros. É também palestrante, tendo participado de eventos e formações voltadas à educação financeira e à transformação digital no setor. No portal da GX Capital, compartilha sua visão sobre o futuro do mercado, tendências econômicas e estratégias práticas para empresas que querem crescer com eficiência e segurança.